O presidente Luiz Inácio Lula da Silva foi reeleito no domingo (25) com 51,79% dos votos válidos, contra 48,21% de Flávio Bolsonaro. Em Santa Catarina, o governador Jorginho Mello já havia garantido a reeleição no primeiro turno. Na segunda-feira (26), o mercado financeiro reagiu mal ao resultado: no fim da manhã, o Ibovespa caía cerca de 17%, o dólar se aproximava de R$ 5,60 e os juros futuros subiam em todos os prazos.
Para a maioria das famílias e dos pequenos empresários da nossa região, que não têm ações na Bolsa, o efeito chega por outro caminho. Dólar alto tende a encarecer produtos e insumos importados nas próximas semanas. Juros futuros em alta deixam o crédito para empresa, carro e imóvel mais caro e mais difícil. A Selic está em 13,75% ao ano, mesmo depois de cinco cortes seguidos, e tudo indica que o dinheiro seguirá caro por um bom tempo. O nervosismo do primeiro dia exagera, mas o problema de fundo é real.
A escala 5x2 chega com o verão
Para o Litoral Norte, porém, o tema mais urgente não está na Bolsa. No dia 16 de outubro, o Congresso promulgou a emenda constitucional que acaba com a escala 6x1. Em até 60 dias, todas as empresas terão de adotar a escala 5x2 e a jornada máxima de 42 horas semanais; doze meses depois, o limite cai para 40 horas, sem redução de salário. Uma escala diferente só será possível por convenção ou acordo coletivo, com a folga compensada dentro do mesmo mês.
Na prática, a nova regra começa a valer em meados de dezembro, exatamente na abertura da temporada. Em Penha, parque, pousadas e restaurantes vão operar o verão inteiro já no novo modelo. Em Navegantes, porto, aeroporto, logística e pesca terão de rever escalas de turno contínuo, ao mesmo tempo em que sentem o efeito do dólar: quem exporta ganha, quem compra insumo de fora paga mais. Em Balneário Piçarras, onde a construção vertical convive com o comércio de verão, a redução para 40 horas deixa a hora trabalhada na obra cerca de 10% mais cara, o que obriga a rever prazos e orçamentos já fechados. Em Penha e região, onde as cidades crescem rápido e têm muitas empresas pequenas e familiares, é o momento de formalizar escala, ponto e custo de pessoal antes que o improviso vire processo trabalhista.
Há também o outro lado. Em uma região onde falta mão de obra todo verão, uma escala melhor pode ajudar a segurar o bom funcionário, e trocar menos de equipe também reduz custo. Para os pequenos, a própria emenda prevê lei complementar com medidas de transição para MEI e pequenas empresas.
2027 começa agora
O planejamento do próximo ano não pode esperar o fim da temporada, porque o calendário de 2027 já está desenhado. Em janeiro, junto com a posse do novo mandato, vem a escolha do regime tributário e a primeira etapa efetiva da reforma, com a CBS começando a substituir PIS e Cofins. Ao longo do ano, a folha de pagamento carrega o custo da jornada de 42 horas e, em dezembro de 2027, a empresa enfrenta a segunda redução, para 40 horas, de novo na abertura da temporada. Ou seja, o custo de pessoal muda duas vezes em doze meses.
Por isso, o orçamento de 2027 precisa ser feito mês a mês, respeitando a realidade da nossa região: um verão que concentra o faturamento e um inverno que testa o caixa. A conta que fecha em janeiro precisa pagar as contas de julho. O empresário deve definir quanto da receita da temporada vai para a reserva da baixa temporada, quais investimentos só acontecem se as vendas confirmarem e qual o reajuste esperado na data-base da categoria. E o plano precisa ser revisto a cada trimestre, porque em um ano de juros altos e câmbio instável nenhuma previsão se sustenta por doze meses.
Cinco frentes para atravessar o ano
Nenhum presidente decide sozinho se um negócio vai bem no próximo ano. O que decide é a organização da casa, e ela passa por cinco frentes.
- Estratégia: fazer três contas antes de dezembro, imaginando vendas menores, custos maiores e uma boa temporada, e decidir de antemão o que fazer em cada caso.
- Gestão financeira: separar desde já o dinheiro da folha de dezembro, evitar o cheque especial da empresa e refazer o custo de mão de obra antes de fechar diárias, cardápios e orçamentos.
- Planejamento tributário: conferir o regime com o contador antes de janeiro.
- Pessoas: organizar escalas, consultar a convenção coletiva e contratar os temporários de verão já no formato novo.
- Tecnologia: ponto eletrônico, controle de escala e um aplicativo de gestão deixam de ser luxo, com uma regra simples: se não economiza tempo ou dinheiro, não vale a compra.
As famílias também precisam de cuidado. Em tempos de notícia ruim, multiplicam-se golpes e promessas de rendimento garantido, e ganho muito acima do normal é sinal de alerta. A reserva de emergência pode começar pequena, em poupança, CDB de liquidez diária ou Tesouro Selic. Dívidas de cartão rotativo e cheque especial, as mais caras do país, devem ser atacadas primeiro. Quem trabalha na temporada precisa fazer o dinheiro do verão durar o ano, guardando parte da renda extra assim que ela entrar. E janeiro traz IPVA, IPTU, matrícula e material escolar ao mesmo tempo, contas que merecem ser separadas antes de o 13º acabar.
A eleição define quem governa. A organização define quem atravessa bem os próximos quatro anos.
Jefferson Custódio é empresário, ex-vereador por dois mandatos em Penha, cofundador e gestor do Grupo CEOCON.